segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Impressões sobre congressos

Semana retrasada, apresentei trabalho em mais um congresso. Pois é. Bom e ruim ao mesmo tempo... Sempre gostei muito desses eventos pelos encontros que eles proporcionam. Mas há algum tempo tenho tido uma impressão sobre esses eventos que também se confirmou dessa vez: a falta de discussão e de debates (o que deveria ser o contrário, né?) em prol da rapidez das apresentações, que tem como principal desculpa o número elevado de trabalhos que são enviados para as sessões de comunicação.

Se por um lado, o número de trabalhos inscritos (e acreditem, até no congresso mais fundo de quintal é cada vez maior) representa um aumento de pesquisa nas áreas e das produções acadêmicas, a qualidade dos trabalhos tem diminuído incrivelmente. Todo mundo apresenta correndo, pega seu certificado e sai contente, mesmo que seu trabalho, por vezes, não tenha sequer metodologia.


A minha hipótese: as pessoas ficam desesperadas por “pontos” no lattes. Elas têm que produzir, têm que ter publicações, apresentações de trabalho, resumos em anais, textos em anais, tudo para “forrar” seu currículo, para seu programa de pós-graduação ganhar pontos e ter um conceito melhor na avaliação da capes...


É uma pena que nosso meio acadêmico tenha se tornado assim. Cada vez me impressiono mais como essa corrida competitiva idiota por publicações no lattes, “pontos” da capes - que surgiu com as políticas mercantilistas implementadas lá no governo FHC - tem um péssimo reflexo no que de fato é produzido pelos envolvidos em ensino e pesquisa. Resultado: as pessoas apresentam qualquer coisa. E quando se trata de publicações, o quadro me parece ainda pior. É cada artigo que se encontra por aí... Não se publica por ter o que dizer. As justificativas das pesquisas são geralmente muito fracas e pouco relacionadas com o “mundo lá fora”.


A falta de interlocução também é preocupante. Em um dos gts (grupos de trabalho) dos quais participei não teve debate por falta de tempo (aliás, nem perguntas podiam ser feitas entre um trabalho e outro, sequer entre os ajustes da parfernalha tecnológica das apresentações em power point), mas uma das coordenadoras se permitiu, no final da sessão, ler em voz alta a lista dos nomes de quem não mandou texto completo para os anais... Constrangimento total. E isso que ela tinha relações estritas com Foucault em seu trabalho. Mera coincidência? Será um tipo de panóptico acadêmico?


Mas nem todos os grupos são assim. Ainda bem. Tem gente séria e que trabalha de verdade. Tive também o prazer de participar de discussões e debates do gt do grupo de pesquisa de pesquisa
ISE (interação social e etnografia) do qual faço parte (não sei se já não fui expulsa, pois faz algum tempo que tenho perdido as reuniões em função das minhas aulas na graduação). Além de poder fazer perguntas ao final das apresentações e, aliviados, não ter que ficar com medo de ver seu nome em alguma lista, tivemos discussões aprofundadas com direito, inclusive, a alguns “bafões” (polêmicas sempre presentes no grupo). Acho que tem muito a ver com nosso professor orientador, que sempre nos encorajou a pensar e questionar tudo (para o mal dele mesmo, por vezes) e exigir seriedade nos trabalhos acadêmicos.


É bom saber que existe gente a fim de discutir. E é bom encontrar o seu lugar. Pena que isso não é a rotina nos congressos e eventos acadêmicos.

4 comentários:

Luanda Sito disse...

Oi, Lia,

concordo com teu comentário. De fato, os motivos que nos levam a um encontro de discussão acadêmica deveriam ser pautados pelo desejo de compartilhar idéias e ouvir contribuições. Five uma experiência feliz no CELSUL, e tu participou disso, por poder compartilhar idéias ainda em maturação com ouvintes interessados em comentá-las. Isso é um privilégio. Tenho organizado diferentes eventos e sempre discutimos o formato que deverá ter para que promova maior diálogo. Uma saída é quebrar a tradição e inovar na metodologia de conversa. Tenho informações de um encontro sobre Bakhtin que aconteceu nesse finde passado em São Carlos/SP q foi bem interessante. A idéia eram rodas de conversas das quais tod@s participavam. Um evento muito bakhtiniano mesmo! Fica a dica para organizar outros. Ah, o cuidado com o tempo tbm é importante, e isso é uma disciplina q aprendi no ISE.
Bjitos

paolinha disse...

falou e disse...

tipo, quero deixar registrado aqui o que aconteceu na mesa redonda sobre linguagem no contexto social. logo após as três apresentações dos participantes da mesa, a monitora que cuidava da sala desmontou TODO o equipamento de data-show. eu, por exemplo, queria fazer perguntas sobre dados em gráficos, sobre conceitos citados em lâminas específicas, sobre análise de dados de interação transcritos na lâmina e não pude, pois a parafernália já tava toda desligada. isso é um absurdo. concordo que os monitores mereçam tempo pra almoço e que eles sejam pagos por um número X de horas, mas acho que devemos pensar no motivo da existência do GT e que quem se candidata deve ter em mente que está lá para ajudar aqueles que querem fazer ciência. e não se faz ciência assim, desligando os equipamentos e expulsando as pessoas que pagaram uma taxa CARA pra participar do evento. outra, a mesma monitora, no meio da fala de um dos participantes da mesa, se levantou, parou BEM NA FRENTE DO CARA (do tarcísio, no caso) e perguntou ao público ao mesmo tempo em que ele respondia uma pergunta: ALHÉM SABE ONDE A FOLHA DE PRESENÇA TÁ? ah, por favor, né.

Carmen disse...

Lia, acho que tu resumiu aqui o que a maioria acha sobre congressos e não tem coragem de dizer. Outra impressão que tive é que cada vez mais os trabalhos bizarros e sem fundamentação recebem perguntas e os trabalhos bons sequer têm um parabéns. Parece que o legal é criticar os trabalhos que estão ruins ao invés de discutir e crescer com os que estão bons... Tive essa impressão no nosso GT também, hehe, eu até acho bom que eu não tenha recebido perguntas nesse caso, quer dizer que o meu trabalho não tava ruim :-)

Beijos e parabéns pelo blog.

Emanuel Souza de Quadros disse...

Concordo com quase tudo o que foi dito aí. Só acrescentaria que as pessoas são muito mais culpadas do que vêm acontecendo do que a própria competitividade do mercado acadêmico.

Quando se tem seriedade (algo que falta por aí), é possível fazer um trabalho de qualidade e ainda estar super bem no mercado. Bem, você conhecem exemplos disso, então não preciso me alongar.