quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Blog é um gênero? Ou um espaço de entrecruzamento de diferentes gêneros?

Outra coisa legal que aconteceu no último SIGET foi que finalmente consegui um debate na minha sessão de comunicações.
A minha pesquisa sobre blogs e produção textual já tinha me rendido um bom trabalho, mas nenhuma discussão interessante, pois não houve comentários mais polêmicos quando apresentei ano passado no CELSUL. Mas dessa vez, já comecei polemizando. E deu certo. Fiquei bem feliz com as diferentes opiniões avindas da discussão.

O nome do trabalho era "O gênero blog e o ensino de produção textual: novas possibilidades de autoria e participação". Analisei casos em que os textos foram produzidos para blogs contrastei com os que foram produzidos para a sala de aula, lidos em aula, tendo como leitores alvo apenas a turma. Acabei comprovando o que algumas pesquisas já tem dito: o uso de blogs só amplia a capacidade de escrita e leitura dos alunos, multiplicando o diálogo e a participação dos leitores e ampliando as possibilidades de autoria (ver pesquisa da Claudia Rodrigues).

Mas durante o percurso da pesquisa, acabei me deparando com a questão: textos produzidos para blogs, diferentes textos, com diferentes funções no mundo (resenhas de filme, contos, crônicas, artigos de opinião) são diferentes gêneros, não? Então se pode falar no gênero blog?
Quando apresentei no congresso, iniciei colocando essa questão e discutindo o prórpio título do trabalho: o gênero blog. A minha opção foi então tratar de gêneros em blogs.

Pelos textos que consultei, já há uma certa polêmica envolvendo o assunto. O próprio professor e pesquisador Luiz Antônio Marcuschi quando inclui o blog como um gênero digital emergente, na sua clássica e seminal introdução do livro Hipertexto e Gêneros Digitais, o faz com muito cuidado. E explica: "é com algum receio que o introduzo aqui (o gênero blog), pois o seu desenvolvimento nos últimos anos levou-o a uma grnade semelhança com a homepage que não é um gênero". Para ele: "os blogs têm uma história própria, uma função específica e uma estrutura que os caracteriza como gênero, embora extremamente variados nas peças textuais que albergam".

Há dois pontos interessantes nessa última citação, que para mim, podem gerar polêmica na definição de blog como um gênero: a função específica (qual seria?) e a extrema variação nas "peças textuais" que os blogs abarcam. Sobre a função, Marcuschi cita o trabalho de Fabiana Komesu no mesmo livro, Blogs e as Práticas de Escrita sobre Si.

Tanto no artigo de Komesu quanto em muitos outros (o livro de Denize Schittine, por exemplo, Blog e escrita íntima na internet) , é comum a compração com os diários pessoais, embora Komesu defenda a não associação direta entre esses dois gêneros por se tratarem de "acontecimentos discursivos distintos". Alex Primo, no artigo em que propõe uma matriz para a tipificação da blogsosfera, critica ferozmente a comparação dos blogs com os diários, definindo-a como reducionista e capciosa. Ele apresenta uma boa proposta de matriz para se estudar os blogs e discute as implicações das categorizações que envolvem autoria, uso e linguagem em blogs.

Minha amiga e ex-colega da disciplina de Mídia-Educação, Nívea Rohling da Silva, me ajudou muito a pensar o assunto. ela publicou há algum tempo um artigo sobre leitura e utilização do blog em sala de aula. Para ela, o blog é um gênero em construção, ainda em formação, que muda rapidamente, inclusive com o agregamento de novas ferramentas e tecnologias. (sobre isso, ainda há quem diga que os blogs vão acabar por se tornarem lentos e pesados, com a rapidez e fluidez do twitter).

Vejo que há muito a ser discutido. Mas para mim, foi um bom começo. Até agora ainda não fui convencida de que o blog é um gênero. Me parece mais um espaço de entrecruzamento de diversos gêneros, mesmo que se leve em conta toda a noção de heterogeneidade que o conceito de gênero abarca. Mas há que se levar em conta muitos outros aspectos ainda, como as rápidas mudanças e a fluidez do ciberespaço, assim como as novas relações com o saber de que fala Pierre Levy.


6 comentários:

dany disse...

Vejo blogs como um espaço, o gênero que o autor vai utilizar nesse espaço vai depender muito da proposta desse blog.

Acho muito legais essas discussões tão sérias sobre blogs, tinha a intenção de estudar mais o tema, levar isso como TCC, mas percebi uma falta de interesse e certo desprezo com o assunto no meio acadêmico e por isso, confesso, desanimei!

Ainda assim, gosto de ler a respeito, gostei muito desse post!

bjo, Lia

Lia Schulz disse...

Querida, não desanima!
Acho que com o tempo todo mundo vai ter que lidar com isso de alguma forma. A Academia sempre demora para dar valor a tudo que foge do cânone. Mas acho que isso tá mudando. Pelo menos na educação já tem bastante gente se dedicando ao ciberespaço. Olha que legal essa outra pesquisadora que encontrei que também está se dedicando ao tema: http://www.gutierrez.pro.br/?p=2874
Fico feliz que tenhas gostado do post e agradeço tua contribuição!
Abraço!

blablablando disse...

Lia, pelas leituras que tenho feito, acredito que gênero seja a situação de interlocução como um todo, ou seja, compreende formato, contexto de produção, a própria variedade lingüística utilizada para comunicar algo e aquilo que é comunicado/feito. As crônicas, resenhas, "entradas de diário"seriam tipos de texto que podem estar em um formato, ser endereçado para um público ou outro. O próprio e-mail em si não é um gênero, e sim um formato de produção. Por exemplo, um e-mail em que a gente se apresenta para uma empresa, em que nos candidatamos para uma vaga de emprego é um gênero é uma situação de comunicação (e um gênero) diferente de um e-mail que escrevemos para um amigo para contar como anda a vida na cidade em que estamos morando. Seguindo essa linha de raciocínio, o blog, em si, não seria um gênero, mas um formato que pode servir a diferentes interlocutores para comunicar/fazer diferentes cosias no mundo. Lembro de muitas discussões em diversas disciplinas com a Marga em que ela sempre lembrava: "gente, não vamos esquecer que gênero é mais que o formato". No meu entendimento, o GÊNERO engloba formato, sitação de produção, inrlocutor e propósito da comunicação. Assim, o blog da bibi calçados sobre notícias do mundo infntil para crianças é um gênero diferente de blogs que postam resenhas sobre livros/filmes. Mas isso é só o meu entendimento sobre o assunto.
Parabéns pelo post,
Beijos,
Paola.

Paola disse...

ah, e respondendo ao comentário da dany: acho que tu tá andando com as pessoas erradas, guria!hahaha brincadeiras a parte, acho que o interesse vem crescendo bastante nas áreas de publicidade e tabém de jornalismo. as maiores marcas e também os maiores jornais estão cada vez mais se digitalizando e criando um espaço mais aberto de interlocução com seus consumidores. este fim-de-semana tá rolando um congresso aqui em sampa sobrer tecnologia, aliás.

Lia Schulz disse...

Paola, muito obrigada pela contribuição!
Concordo em muito com tuas colocações e acho que tenho caminhado nessa mesma direção em minha pesquisa. Quero ler mais ainda, especialmente Bakhtin, que tem tudo a ver e acredito que possa embasar essa nossa visão de gênero. Por isso mesmo achei estranho quando, no congresso, alguns bakhtinianos se mostraram tão certos em dizer que o blog é um gênero. Talvez essa opinião ainda esteja muito vinculada à comparação reducionista que se fazia dos blogs com os diários pessoais.
Valeu pelo comentário! E que bom que tu gostou do post!
Abraço!

Carmen disse...

Muito legal o teu post, Lia! Eu demorei para responder porque, na correria de trabalhos aqui, meus dias ficam curtos... :-(
Eu acredito no blog como um ambiente que veicula muitos gêneros, com diferentes propósitos. Hoje em dia, inclusive, o blog perdeu muito do seu formato "diário virtual", e passou a ser um formato de armazenamento de informações para quem quer montar um site mas não tem familiaridade com as linguagens de programação.
Quando fiz meu primeiro estágio de docência, montei um blog conjuntamente aos alunos, com seus textos, e esse blog ficou, na época, como um ambiente de encontro da turma nas aulas de Língua Portuguesa.
Outra questão do blog são os comentários aos posts, que podem ser de naturezas diversas, dependendo do propósito de interlocução do leitor com aquele texto.
Temos discutido muito Bakhtin na disciplina da Luciene, de Ensino e Aprendizagem de Língua Materna, e a cada leitura descubro que o gênero é uma categoria muito fluída, que envolve diferentes esferas de atuação de quem escreve e quem lê.

Um beijo!
Carmen.