sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os usos de Gêneros em sala de aula

A última edição da Revista Nova Escola traz uma matéria bem interessante sobre o trabalho com Gêneros em sala de aula. "Como usar os gêneros para melhorar a leitura e a escrita" articula bem as discussões atuais do ensino de português com o uso de construções autênticas de texto.

A matéria pode parecer até um pouco prescritiva quando qualifica usos de gêneros com termos como bons ou adequados, mas acho que, embora seja óbvia para alguns, essa discusão ainda é necessária e atual, tendo em vista que em muitas salas de aula ainda se faz um uso meramente instrumental dos gêneros, enfatizando apenas seus aspectos estruturais para fins avaliativos.

Tal uso dos gêneros também foi debatido no V SIGET, entre tantas outras discussões, como comentei num post anterior. Ainda que pareça haver um consenso de muitos pesquisadores que esse não é o uso que se quer para formar sujeitos críticos, leitores, escritores e participantes ativos em suas comunidades, há certos enfoques que defendem a mera transposição de gêneros para a sala de aula para que o aluno os aprenda praticamente como fórmulas. Esse fenômeno é chamado por alguns de "escolarização" dos gêneros e funciona da seguinte maneira: se pega um uso autêntico de linguagem em que pessoas estão fazendo uma coisa no mundo e se leva tal qual uma fórmula para que os alunos possam repetir até aprender em sala de aula (e em alguns casos memorizar mesmo) e, ao final de um determinado tempo, serem avaliados por isso.

No congresso, tivemos o desconforto de assistir a uma apresentação de uma pesquisa assim. Era uma professora brasileira que agora dá aula em Genebra, Glaís Cordeiro. O nome do trabalho era "Ensino da linguagem oral na Educação Infantil: o lugar dos gêneros textuais formais".
Ela apresentou uma sequência didática em que se trabalhava o gênero "receita" (para começar: receita é um gênero textual formal?) com crianças de pré-escola. Os dados analisados por ela mostravam as gravações de crianças de 4 a 6 anos repetindo oralmente para a professora e para a pesquisadora (que estavam filmando as crianças) a apresentação de uma receita. Elas tinham que repetir tal e qual, como uma fórmula, incluindo o cumprimento inicial, a apresentação dos utensílios, dos ingredientes e o modo de preparo. Ao final, elas ainda "tinham que" dizer " bom apetite". Tudo isso para ver, segundo a pesquisadora, o quanto "ficou" do gênero receita.

Nos perguntamos, eu e Gabi, qual era a função disso no mundo? fazer uma receita? Não era o que parecia. Estava mais para apresentar e ensinar a fazer uma receita, algo decorado que tinha que ser recitado oralmente.
Pensamos: será que eles estão " treinando" (porque parecia literalmente um treinamento) para serem "Ana Maria Bragas", sendo que esta, como a Gabi colocou, usa em seu programa uma "colinha", em que ela lê a receita?
Para quem e para quê os alunos estavam aprendendo a receita? Qual o significado social desse evento em sua comunidade? Qual a importância de crianças de 4 a 6 anos fazerem isso?
Isso é uso autêntico? Parece que nem para os pesquisadores de Genebra está claro. Para nós, pareciam ratos de laboratório repetindo o gênero, ou a fórmula que lhes foi ensinada.
Nem vou entrar nas questões éticas aqui, que me pareceram absurdas, mas quando se transforma uma receita em algo a ser recitado, se padroniza, se espera determinadas ordens e comportamentos, e pior, se avalia o seguimento ou não dessas ordens e comportamentos, não se está corrompendo completamente o que um gênero deveria ser?

Por essas e outras, as discussões de uso de gêneros ainda parecem muito pertinentes. Ainda há muito o que se falar para não se transpor simplesmente eventos autênticos, atividades que tem um sentido no mundo para dentro da escola, que tenta assim impor seu papel avaliador e institucionalizante, transformando e plastificando sujeitos, seus textos e ações. Por isso é importante continuar lendo, debatendo, pensando...


4 comentários:

Estudos do Letramento e Alfabetização disse...

Gostei muito dos seus comentários, pois você toca na questão central. Ao mesmo tempo, entendo que a "escolarização" dos gêneros (assim como dos aspectos da textualidade ou da língua, até mesmo da imagem) é um fenômeno importante para o funcionamento da escola moderna. A grande questão é como você questiona: chegaremos a qual objetivo ao "ensinar" os gêneros ou qualquer prática de linguagem dessa forma? Possivelmente, pelo que conheço do trabalho da Glaís Cordeiro a preocupação central parece ser com as operações de linguagem necessárias para ações de linguagem que, dominadas, constituem as capacidades.Enfim, são várias questões em jogo.Parabéns pelas reflexões! Tenho alguns artigos sobre o assunto, se quiser escreva-me:
cleciobunzen@yahoo.com.br
Quem me passou seu blog foi a Luanda!!

Lia Schulz disse...

Clécio!
Obrigada pelos comentários!
Fico feliz que a Luanda tenha te indicado o blog. Vou querer sim ler seus artigos.
Estou gostando de pensar sobre isso (e esrever também). Até por isso esses encontros podem ser tão produtivos, né, mesmo quando a gente não concorda com todas as visões, fazem a gente pensar.
Esse ponto sobre a escolarização e o papel da escola moderna / atual também ainda não está claro para mim. Mas quero ler mais e pensar no assunto. Obrigada pela troca!
Abraço!

Estudos do Letramento e Alfabetização disse...

Mande-me um e-mail que vou te enviar os artigos...

Ingrid Frank disse...

Pois é, Liazita, a questão que norteia a tua discussão aqui é justamente a que deveria estar subjacente a qualquer análise de tarefa pedagógica e de qualquer atividade de sala de aula: POR QUÊ fazer isso?

Qualquer tarefa que um professor proponha tem que ter um objetivo claro: Por que eu vou fazer meus alunos decorarem e apresentarem uma receita? Será que isso vai ajudá-los , como o colega Clécio colocou, a “dominarem as operações de linguagem necessárias para ações de linguagem”? Que ações seriam essas? Eu, assim como tu, só consigo ver que, a partir dessas atividades, eles desenvolveriam as habilidades necessárias para ações de memorização, de decoreba... Acho que não é isso que se quer dizer quando se fala em uso da linguagem como uma forma de ação...
Talvez, algo mais coerente com a noção de se usar a receita para realizar ações por meio da linguagem seria capacitar os caras a lerem e compreenderem uma receita suficientemente para fazerem um bolo, ou para conseguirem passar a receita de uma comida que eles adoram para um colega, ou mesmo para enviarem um email para o programa da Ana Maria Braga contando a receita de um prato diferente que a mãe deles fazem pra ganhar um prêmio!!

Agora, convenhamos, pode-se discutir anos e anos sobre gêneros, sobre linguagem como forma de ação no mundo, sobre letramento... mas a escola tem o dom de escolarizar tudo! No mau sentido, é claro.

Um beijão,
Ingrid