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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Criança e consumo

Hoje, vários blogs comentam a pesquisa que saiu sobre o perfil de crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual. O dado comentado (e com muita surpresa em vários posts) é o que mostra que 65% desses jovens usam o dinheiro para comprar objetos de consumo (ver, por exemplo, o post do Diário Gauche).

O que me choca é a surpresa por parte de alguns, como se não vivêssemos numa sociedade de consumo, estimulado desde cedo, intensamente. Recomendo o documentário "Criança, a alma do negócio", dirigido por Estela Renner (pode ser visto aqui) para todos que se interessam pelo tema (obrigatório para educadores!). É um ótimo ponto de partida para se pensar a questão, que é muito mais complexa e envolve muito mais níveis de análise do que se imagina.

O documentário questiona a publicidade dirigida às crianças e revela a produção de subjetividades que se dá a partir das práticas consumistas veiculadas na TV e nos artefatos culturais produzidos para esse público. Não concordo que se faça uma "demonização" explícita da publicidade, mas acho que é preciso pensar nisso, olhar para essa produção de desejos forçada e já tão naturalizada por nós. Só para começo de conversa...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Imagens de salas de aula

Deu no Jornal Hoje: professora de Viamão/RS faz aluno pintar parede da sala que ele mesmo tinha sujado (pichado, segundo o jornal). Até aí, não passava de mais uma matéria meio senso comum sobre sala de aula típica desse programa de TV.

O que chamou a minha atenção foi a fabricação e divulgação das imagens da sala de aula. Um dos colegas do rapaz filmou (provavelmente com o celular) a execução da tarefa e divulgou o video.
A família do aluno punido se sentiu ofendida com o ocorrido e disse que vai procurar o conselho tutelar. O programa de tv, por sua vez, realizou até uma enquete em seu site, pedindo a opinião das pessoas sobre a atitude da professora em ter punido o aluno dessa forma. Quase 98% dos participantes (segundo o programa) apoiaram a professora. O Jornal também colocou a matéria completa no site, comentando a reação dos pais.

Parece que cada vez mais convivemos com imagens de sala de aula e assistimos constantemente (como a grande parte dos espetáculos cotidianos) a cenas não tão bonitas como talvez nosso imaginário idealista sonhasse. Não se tratam de pessoas aprendendo e ensinando juntas em espaços tranquilos, onde diálogos e trocas fluem facilmente. Na maioria dos casos, são cenas violentas mesmo, cheias de conflitos e agressões.

Talvez muitos dos fatos que têm aparecido na mídia - e assim, fabricados e também modificados por ela - não sejam tão novos. Muito se fala sobre o bullying (termo usado para se descrever atos de violência física ou psicológica contra alguém em desvantagem), por exemplo, tão antigo e tão atualmente divulgado. Há quem diga, no entanto, que tal fenômeno agora ganha uma nova força tecnológica e midiática, já que muitas ações de humilhação de jovens têm sido filmadas e divulgadas na rede.

Mas essas imagens são novas para nós? Quem não lembra de momentos violentos ocorridos em sua escola quando era criança? Brigas e agressões verbais entre alunos ou mesmo entre alunos e professores não estiveram sempre presentes na escola?

Talvez o novo não seja a violência de se institucionalizar sujeitos, mas a espetacularização disso. Multiplicam-se as telas, multiplicam-se os olhares para a sala de aula. Novos panópticos, para o bem e o mal. E agora midiáticos.

Se antes, o controle estava tão claramente e institucionalmente na mão do professor, hoje mais do que nunca, a autoridade precisa ser construída. E diga-se que é praticamente impossível de fazer isso sem conflito. E agora, ele explode assim, aos olhos de todos, numa matéria de três minutos após almoço. Mais um video para se ver no youtube, mais um comentário para se fazer, às vezes, sem pensar: "é, a educação não tem jeito mesmo!"